segunda-feira, 11 de abril de 2011

Na vigésima quinta hora

Por que será que deixo sempre para escrever minha crônica semanal na última hora? Deve haver algum significado nisso, eu ainda não pensei muito a respeito, mas a verdade é que espero até o último momento, como alguém que resolvesse não mais mandar mensagens, mas na última hora se arrependesse e mudasse de idéia.
Talvez eu espere até o último momento, porque a angústia da página branca por vezes é curiosa e acaba por transformar-se numa lembrança escura, mas ainda assim lembrança que, se não for assustada, pode ser capturada.
Uma lembrança que brotou lá no fundo e nadou em silêncio nas águas escuras veio à superfície nesta vigésima quinta hora do dia. Veio surgindo um corredor antigo, um soalho de madeira e portas de folhas duplas, talvez pintadas de verde, naquilo que já identifico como a casa da avó paterna, em São Cristovão, onde passei grande parte da minha infância e onde moravam os sonhos e esperanças de minha família.
Mas por que estou eu no corredor que leva ao quarto dos fundos? Meu irmão caçula nasceu naquele quarto. Eu tinha seis anos e lembro que minha prima foi nos acordar e nos levou para ver o bebê. Lembro do rosto da minha mãe, exausta e de meu pai que examinava o rebento. Eu vou me deixar ficar no corredor e esperar até que todos passem por mim. É uma maneira de matar as saudades. É, também, uma maneira de descobrir coisas inusitadas sobre as pessoas com quem convivemos toda uma vida.
Acho que no final das contas, é por isso que deixamos tudo para a última hora. Porque no sufoco, quando acredita-se que já não há verbo, os que moram no fundo do labirinto surgem e, como mágicos que nos enganam com as mãos, oferecem alguma ilusão, que eu prefiro chamar de história.
De vez em quando, é bom olhar para dento. Mas, se aceitam um conselho, marquem o caminho para não se perderem na hora de voltar!
- Miguel Falabella -

3 comentários:

Patricia disse...

A escrita do Miguel Falabella é fantástica, esta parece-me uma autobiografia.
Saudades, nostalgia ... quem não as tem?

Beijinhos enormes para ti :)

Aliny disse...

Miguel Falabella eh D+ como humorista ...e como escritor ele eh showwwwww...ate euzinha fui parar na casa de minha bisa...q coisa qdo eu tava no manancial senti uma vontade de chorar ...e agora aki no LP descobri o motivo...lembrei do quintal...das flores...o cheiro q vinha do hortela q ela apanhava e fazia chazinho p nos ...agora me veio uma melancolia.. t amodoluuuuuu mttttt ...Bjinhux

Néia Lambert disse...

Tetê, o texto do Miguel é bom, mas confesso que não sou de deixar para a última hora as coisas que tenho que escrever ou resolver na vida, isso me apavora, preciso da tranquilidade que só o tempo de sobra pode oferecer.

Beijos