
Enjoei, cansei, perdi a graça: a gente podia ser original e abrir os armários dos esqueletos e das vergonhas, assumir seus erros, parar de agir como se isto aqui fosse o reino dos bobos.
O exercício do poder exige um sólido alicerce humano e cultural, humildade, realismo, experiência e visão de mundo – para poder pronunciar de boca limpa vocábulos como “
ética”. As palavras se repetem, se desgastam e deformam como objetos usados demais ou mal usados. Termos como “
ética” e “
indignação”, perdem seu real valor.
O barco afunda: alguns ratos já foram lançados na água, outros se agarram com dentes, patinhas e longos rabos ao que sobrou. Adianta ranger os dentes, vale a pena se expor, não estará esgotado o velho tema de renovação e confiabilidade?
Os sinceros curvam-se ao peso da omissão: podíamos ter ignorado tudo isso? Os honrados, revendo conceitos de uma vida inteira, se questionando dolorosamente; os cínicos usam da velha arrogância ou fingem nada saber, e os covardes se escondem atrás de desculpas escandalosas.
O Brasil geme nas dores do parto de (esperemos) uma democracia mais verdadeira, e uma vida pública mais limpa.
Quando a ferida explodiu, eram tantos os males que quase não conseguimos respirar – nós que vivemos do suor do nosso trabalho, nós que pagamos as contas com dificuldade e os impostos com indignação, nós, quase paralisados por juros absurdos, nós que acreditamos neste país mas somos forçados a desacreditar de boa parte dos que o comandam.
Nós, desmoralizados pelas mentiras do bando que assinava sem ler, fazia reuniões sem ver, viajava sem saber, negociava o bem-estar do seu país, prevaricava sem se dar conta, e agora experimenta todas as máscaras disponíveis, enquanto aponta o dedo para os outros: “
ele também fez xixi na calça, ele é pior que eu!”
Nas coxias, procura-se (ou procura-se ainda ocultar) o responsável: quem esteve por trás de tudo isso? Que pessoa, grupo, entidade, manejava os cordéis, enganava e intimidava todo mundo, e, covarde criminoso, não mostra o rosto? Quem assassinou tão meticulosamente a nossa confiança? Que surpresa malévola nos aguarda a cada dia?
O fio da meada se desenrola cada vez mais longo, mais complicado e sombrio, mesmo para quem gostaria de fechar os olhos e morrer negando a traição: “
eu posso explicar... não é o que parece”. Não nos iludamos com alguns números da nossa economia nem com os sorrisos da elite do poder: estamos por baixo, estamos naufragando, e se não aproveitarmos essa ocasião para graves mudanças, seremos o subpovo de um subpaís, digno de piedade.
Apesar da ameaça da descrença que me ronda, preciso esperar que ao fim e ao cabo a vergonha não tenha passado de moda inteiramente.
Talvez a verdade enfrentada de peito aberto nos devolva a confiança, e a nossa alma brasileira habite um país com narizes menos compridos, memórias menos lesadas, bandidagem menos homenageada e esperança ainda viva. Podem-se então estabelecer novas regras, e soprar novos ares, porque está na hora.
É possível que a esperança e o otimismo ainda tenham lugar por aqui, e o Brasil seja uma fênix que vai renascer mais limpa e mais forte desta fogueira das vergonhas: isso desejo, mas admito que sem grande ilusão.
- Lya Luft -
===Sei que o post ficou longo, mas não consegui resumir, como sempre faço com as crônicas da Lya Luft. A indignação dela é a minha e, acredito, que seja a de todas as pessoas honestas diante da falta de vergonha de nossos governantes. Passamos a semana com os noticiários falando sobre o acidente aéreo do dia 31/5 e eu me pergunto: o que será que está sendo tramado nos bastidores políticos? Infelizmente estou aguardando “alguma surpresa malévola” quando o caso AirFrance for encerrado! É o que sempre acontece quando estamos na torcida na Copa do Mundo, quando estamos perdidos em fantasias no Carnaval e quando estamos solidarizados com a dor de nossos irmãos... Tenho até medo de pensar no que possa vir de Brasília!