Um vento gelado soprava por entre as árvores, pairava no ar alguma coisa sepulcral, mas era um dia comum. Necessário se fazia que a rotina acontecesse.
Na casa Del Vettii as lamparinas ficaram acesas até tarde, uma daquelas reuniões de sempre, com a presença de algumas moças de Herculano. Naquela noite, o “quarto especial” esteve sempre ocupado. O amor se fazia mais intenso.
A música da sala maior enchia a casa. Baco reinava ao lado de Éros. Pam levava os corpos saciados do desejo e inebriados pelo vinho a se contorcerem enlaçados, sensualidade à flor da pele.
Na Casa de Banhos os homens deliciavam-se, as piscinas de água morna e quente estavam cheias. Vez por outra se colocava mais carvão no braseiro para que a noite não tivesse fim.
Na Vila dos Mistérios, num ritual, uma menina lê um oráculo diante da mãe. Outra senhora, envolta em mantos pesados a observa, como a analisar cada palavra proferida. A criada vestida com tecidos leves e descalça passa com a bandeja de iguarias. Curiosa, volta-se de leve como a querer ouvir a leitura.
No Templo d’Apollon uma multidão reunida ora, contempla as inscrições em língua etrusca; a influência da cultura grega, ali presente. Sente o orgulho de ser um povo vindo de muitas conquistas.
Os mais humildes dormiam, sonhavam com a prosperidade que os levaria a usufruir da vida. Nas ruas estreitas algum transeunte retornava à casa. Poucos perceberam um fino fio de fumaça que saía do cume da montanha exalando cheiro estranho.
A manhã surpreendeu muita gente! O cheiro de gazes tóxicos nivelou todas as camadas sociais e finalmente os deixou em sono aparente. Gente apavorada tentava proteger-se. Não havia meios, o ar estava envenenado, os minutos finais foram terríveis. Cenas de carinho, desespero, pavor, estagnação.

Dois dias depois, o Vesúvio arrota uma grossa língua de fogo e sela de vez toda a cidade de Pompéia, Herculano e arredores. Deixando para a posteridade o valioso monumento histórico, macabro mas fascinante, para mostrar que
o poder do homem de nada vale diante da natureza enfurecida.
- Luciene Freitas -
Até amanhã!