
Mais que tudo, provoca isolamento e dor além do necessário.
Em uma recente palestra para empresários – homens e mulheres – só chegando lá percebi que falaria enquanto eles almoçavam. Como não costumo fazer isso, fiquei num vago mau humor. A idéia de pessoas manejando talheres e copos, mastigando e quem sabe conversando enquanto eu falasse, me incomodou.
Não havia como voltar atrás: a culpa era da minha desatenção, de não haver entendido direito o convite.
Todos sentados, comecei a falar achando que meu desconforto ridículo estava evidente. O tema: Transgressões Positivas. Eu não podia cometer a primeira, levantar da cadeira e ir embora? Não podia. Ninguém tinha culpa da minha trapalhada.
Transgressão positiva, comecei então, podia ser vencer o espírito de manada e a coerção da superficialidade que nos esmagam neste mundo nosso. Um pouco de frivolidade é necessária: que os deuses nos livrem de sermos solenes, de sermos politicamente corretos.
O problema inicial é que estamos acorrentados a muitos deveres, cheios de responsabilidades. Porém, embora a gente faça tudo para não notar, a morte está empoleirada em nosso ombro, espiando com seu inquietante olho de coruja: o que fazer com tal inquilina e com o tempo que ela ainda nos concede?
Falamos muito em ética, porém mais vezes do que seria confessável escutamos a conversa de nosso mulher ou marido na extensão do telefone; falamos em justiça social, mas eventualmente pagamos o melhor salário possível à nossa empregada e lhe servimos um prato feito.
De repente me dei conta de que alguns paravam de comer, mas não estavam ofendidos com minhas alusões. Entre nós até circulava aquela cumplicidade de iguais que eu me habituara com leitores, mas não esperava de homens e mulheres de negócios.
Terminei vagamente intrigada, mas as palmas foram cálidas. Então um empresário pediu a palavra. Ele me olhou direto e indagou, no silêncio atento que se abria:
“Quantas vezes a senhora acha que a gente pode amar na vida?”
Respondi surpresa: “Sempre que nos sentimos demais sozinhos e a vida nos oferecer esse milagre, e a gente tiver as condições e a coragem de o concretizar”.
Agora as palmas não foram para mim, mas para ele, e para a vida que ali se expressava com tal dignidade.
Saí dessa experiência com mais um dos meus preconceitos de cara no chão. Numa dessas contradições animadoras, o que começou mal acabou bem – porque um homem se postou diante de todos com a tranqüilidade bem humorada dos mais experientes, sem receio de enfrentar seus pares, de se mostrar vulnerável, de assumir sua real grandeza: a de ser uma pessoa.
- Lya Luft -
Até amanhã!
























